Diagnóstico Sorológico da Sífilis

Fatos importantes para a Sífilis

A maioria das infecções é assintomática ou não reconhecida.

A OMS estima que 8 milhões de adultos entre 15 e 49 anos contraíram sífilis em 2022 no mundo, sendo que nessa faixa etária o número estimado de novas infecções aumentou em cerca de 1 milhão em 2022.

A sífilis na gravidez, quando não tratada, tratada tardiamente ou tratada com o antibiótico incorreto, resulta em 50 a 80% dos casos com desfechos adversos no parto.

Sorologia para Sífilis: incluem os testes treponêmicos, que podem ser por quimio ou eletroquimioluminescência, Elisa e FTA-ABS etc. Estes testes têm um desempenho semelhante em sensibilidade e especificidade.

VDRL é o teste não treponêmico padrão.

Lembrete:  Um único teste sorológico, seja ele não treponêmico ou treponêmico, é insuficiente para diagnosticar a sífilis.

Diagnóstico Sorológico de Sífilis: o que solicitar ao laboratório?

A sífilis é uma infecção de caráter sistêmico, exclusiva do ser humano, causada pela bactéria Treponema pallidum (T. pallidum), e que, quando não tratada precocemente, pode evoluir para uma enfermidade crônica, com sequelas irreversíveis em longo prazo. É transmitida predominantemente por via sexual e vertical. A infecção da criança pelo T. pallidum a partir da mãe (infecção vertical) acarreta o desenvolvimento da sífilis congênita.

Ao longo da evolução natural da doença, ocorrem períodos de atividade, com características clínicas, imunológicas e histopatológicas distintas, intercalados com períodos de latência, durante os quais não se observa a presença de sinais ou sintomas.

A sífilis é uma infecção de múltiplos estágios. O curso da sífilis não tratada consiste em fases sintomáticas entremeadas por períodos assintomáticos (latência). A evolução clínica da infecção, no entanto, pode ser alterada por alguns fatores, como o estado imunológico da pessoa e a administração de terapias antimicrobianas para outros patógenos, que podem ser efetivas contra o treponema. Dessa forma, o tempo de apresentação e os sinais e sintomas podem variar.

Tradicionalmente, a sífilis não tratada é classificada nos seguintes estágios:

Sífilis Primária:

   – Ferida, lesão geralmente única, no local de entrada da bactéria (pênis, vulva, vagina, colo uterino, ânus, boca, ou outros locais da pele), que aparece entre 10 e 90 dias após o contágio. Essa lesão é rica em bactérias (treponemas) e é chamada de “cancro duro”;

   – Normalmente a ferida não dói, não coça, não arde e não tem pus, podendo estar acompanhada de ínguas (caroços) na virilha;

   – Essa ferida desaparece sozinha, independentemente de tratamento.

Sífilis Secundária:

   – Os sinais e sintomas aparecem entre seis semanas e seis meses do aparecimento e cicatrização da ferida inicial (o “cancro duro”);

   – Podem surgir manchas no corpo, que geralmente não coçam, incluindo palmas das mãos e plantas dos pés. Essas lesões são ricas em treponemas;

   – Pode ocorrer febre, mal-estar, dor de cabeça, linfonodomegalias pelo corpo;

   – As manchas desaparecem em algumas semanas, independentemente de tratamento, trazendo a falsa impressão de cura.

– Sífilis latente:

   – Não aparecem sinais ou sintomas;

   – É dividida em:

Latente Recente (até um ano de infecção) e Latente Tardia (mais de um ano de infecção);

   – A duração dessa fase é variável, podendo ser interrompida pelo surgimento de sinais e sintomas da forma secundária ou terciária.

– Sífilis Terciária:

   – Pode surgir entre 1 e 40 anos após o início da infecção;

   – Costuma apresentar sinais e sintomas, principalmente lesões cutâneas, ósseas, cardiovasculares e neurológicas, podendo levar à morte.

O desempenho dos testes diagnósticos para sífilis dependerá da presença de lesões, da capacidade de produção de anticorpos pelo organismo da pessoa infectada pelo T. pallidum, do estágio clínico da sífilis (isto é, primária, secundária, latente recente, latente tardia ou terciária) e do método diagnóstico empregado no teste.

A Figura abaixo apresenta o desempenho dos testes que auxiliam no diagnóstico

conforme o estágio da sífilis não tratada, quando não há o desencadeamento da

cura espontânea.

Testes sorológicos diagnósticos

Os testes não treponêmicos detectam anticorpos não específicos, como os anticorpos anticardiolipina, enquanto os testes treponêmicos detectam anticorpos específicos contra o Treponema pallidum, a bactéria causadora da sífilis.

O teste não treponêmico (VDRL) apresenta sensibilidade variável dependendo do estágio da doença. É menos sensível no estágio inicial (sífilis primária) e tardio (sífilis latente tardia e sífilis terciária), e apresenta maior sensibilidade no estágio de sífilis secundária e latente recente. Testes treponêmicos, como FTA-ABS, Elisa, eletro e quimioluminescência são mais sensíveis do que os testes não-treponêmicos, especialmente na sífilis primária, latente tardia e terciária.

Sensibilidade dos Testes Sorológicos

Testes não treponêmicos (VDRL):

Sífilis Primária: A sensibilidade varia de 50,0% a 78,4%.

Sífilis Secundária: A sensibilidade é tipicamente alta, próxima a 100%.

Sífilis Latente Recente: A sensibilidade varia de 80% a 95%.

Sífilis Latente Tardia e Sífilis Terciária: A sensibilidade pode ser menor, potencialmente chegando a 25% na sífilis não tratada.

Testes treponêmicos (FTA-ABS, eletro e quimioluminescência, ELISA):

Geralmente apresentam maior sensibilidade do que os testes não treponêmicos.

Sífilis Primária, Secundária e Latente Recente: Sensibilidade próxima a 100%.

Sífilis Latente Tardia e Sífilis Terciária: Geralmente, ainda apresentam alta sensibilidade.

Pontos importantes

Um resultado positivo em um teste não treponêmico (VDRL), especialmente com um título alto, é sugestivo de sífilis ativa.

Um resultado positivo em um teste treponêmico, combinado com um teste não-treponêmico positivo ou reativo, ajuda a confirmar o diagnóstico de sífilis.

Os testes não-treponêmicos (VDRL) são úteis para monitorar a resposta ao tratamento, porém os testes treponêmicos são menos úteis nesse sentido.

Uma pessoa pode ter sífilis e não saber, pois se não tratada, os sintomas da infecção podem surgir e desaparecer e a infecção continuar latente no organismo.

Um único teste sorológico, seja ele não treponêmico ou treponêmico, é insuficiente para diagnosticar a sífilis.

Diagnóstico Sorológico de Sífilis: o que solicitar ao laboratório?

1- Diagnóstico em pacientes que não possuem histórico de Sífilis (pessoas assintomáticas). Potencialmente poderiam apresentar sífilis.

Representam a maioria de pessoas em consultório.

Solicitar: Sorologia para Sífilis (teste treponêmico) + VDRL (teste não treponêmico).

Códigos TUSS: 40307735 / 40308286 (Sorologia para Sífilis) / 40307760 (VDRL).

Sorologia para Sífilis: incluem os testes treponêmicos, que podem ser por quimio ou eletroquimioluminescência, Elisa, FTA-ABS etc.

VDRL é o teste não-treponêmico padrão.

2- Monitoramento do tratamento de Sífilis.

Pacientes com histórico de diagnóstico prévio e tratamento de Sífilis (sorologia para sífilis e VDRL anteriormente positivos).

Solicitar: VDRL (teste não-treponêmico) para avaliação da titulação da amostra.

Código TUSS: 40307760.

Após o tratamento da sífilis, o título do VDRL (a concentração de anticorpos no sangue) deve diminuir ao longo do tempo. A redução e mesmo a negativação do título do VDRL é um indicador de sucesso do tratamento.

3- Diagnóstico de Sífilis após Teste Rápido reagente

Pacientes com histórico de ir a um serviço de saúde e realizar Teste Rápido positivo.

Solicitar: Sorologia para Sífilis (teste treponêmico) + VDRL (teste não treponêmico).

4- Sífilis congênita

4.1- Para crianças com idade ≤ 18 meses

Solicitar: VDRL (teste não treponêmico).

4.2- Para crianças não testadas anteriormente com idade > 18 meses

Solicitar: Sorologia para Sífilis (teste treponêmico) + VDRL (teste não treponêmico).

O significado de testes positivos, treponêmicos ou não treponêmicos, no soro dos recém-nascidos, é limitado em razão da transferência passiva de anticorpos IgG maternos que, no entanto, tendem progressivamente a declinar até a sua negativação, ao fim de alguns meses. Na ocorrência de sífilis congênita, ao contrário, os títulos se mantêm ou aumentam, caracterizando uma infecção ativa.

A transferência transplacentária de anticorpos IgG maternos dificulta a interpretação do resultado do teste reativo em neonatos.

Considerando-se que a maioria das crianças apresentasse assintomática ao nascimento, a aplicação de testes sorológicos para o diagnóstico deve ser avaliada cuidadosamente, tendo em vista que o diagnóstico da infecção pelo T. pallidum por meio da presença de anticorpos na criança pode ser confundida com a passagem passiva por via transplacentária de anticorpos IgG maternos. Nesse sentido, indica-se a comparação dos títulos da sorologia não treponêmica (VDRL) na criança com a da mãe, preferencialmente, de um mesmo teste realizado em um mesmo laboratório. Títulos da criança maiores do que os da mãe indicariam suspeita de sífilis congênita. De uma forma geral, aplicando-se testes não treponêmicos, os títulos de anticorpos começam a declinar a partir dos três meses de idade, negativando-se em torno dos seis meses de idade.

Os testes que pesquisam IgM para o diagnóstico de sífilis, não devem ser utilizados devido à sua baixa sensibilidade. O ministério da saúde tem desencorajado o uso da pesquisa de IgM no diagnóstico de sífilis.

5- Sífilis Terciária e Latente Tardia

Solicitar: Sorologia para Sífilis (teste treponêmico) + VDRL (teste não treponêmico).

Um único teste sorológico, seja ele não treponêmico ou treponêmico, é insuficiente para diagnosticar a sífilis.

A sífilis terciária, ou sífilis tardia, é a fase mais grave da infecção, que pode surgir muitos anos após a infecção inicial, se não for tratada. Caracteriza-se por lesões destrutivas em órgãos e tecidos, como pele, ossos, coração e sistema nervoso, podendo causar danos permanentes e até a morte.

A sífilis terciária pode surgir entre 1 e 40 anos após o início da infecção.

A sífilis terciária, quando não tratada, pode causar demência, conhecida também como paresia geral ou neurossífilis parética. Essa forma de demência é caracterizada por um declínio cognitivo progressivo e alterações no comportamento.

A demência por neurossífilis pode ser confundida com outras causas de demência, como Alzheimer, por exemplo.

É fundamental que a sífilis terciária, incluindo a neurossífilis, seja diagnosticada e tratada precocemente.

O tratamento com antibióticos, como penicilina, pode ajudar a controlar a infecção e reduzir os sintomas, minimizando a progressão da demência.

6- Neurossífilis

O VDRL é a prova recomendada para o exame do líquido cefalorraquidiano (líquor). O VDRL no líquor tem baixa sensibilidade (30-47% falso-negativo) e alta especificidade. O FTA-ABS pode ser positivo pela passagem de anticorpos por difusão do sangue para o LCR em pacientes com sífilis. Porém é um teste altamente sensível, e a neurossífilis poderá ser excluída diante de um FTA-ABS negativo.

O teste FTA-ABS no líquor é considerado um exame altamente sensível e específico para o diagnóstico de neurossífilis. A sensibilidade do FTA-ABS no líquor é geralmente alta, podendo ser >95% na sífilis terciária. A especificidade do FTA-ABS no líquor pode atingir taxas que podem variar entre 96% e 99%.

Estas informações fornecem uma visão geral e podem não se aplicar a todos. Se necessário consulte um especialista para saber se são aplicáveis ao seu caso e para obter mais detalhes do assunto.

Referências

1- Manual Técnico para o Diagnóstico da Sífilis. Ministério da Saúde.

Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Brasília – DF 2021.

2- https://www.cdc.gov/mmwr/volumes/73/rr/rr7301a1.htm#:~:text=Sensitivity%

3- https://www.scielo.br/j/bjid/a/BgZMFshh7jRcJc8Gfd5LZHh/?lang=en#:~:text=Th

4- https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC2095002/#:~:text=Therefore%2C%2

5- https://www.mountsinai.org/health-library/tests/vdrl test#:~:text=The%20VDRL

6- https://austinpublishinggroup.com/clinical-case-reports/fulltext/ajccr-v10-id1304.pdf

7- https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_sifilis_bolso.pdf

8- https://www.scielo.br/j/anp/a/wVyCRKb3hVNygtZxs8NDwRy/

9- https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a z/s/sifilis#:~:text=secun

10- https://prontopele.com.br/2024/03/25/sifilis-adquirida-o-que-voce-precisa-saber-2/

11- https://www.drakeillafreitas.com.br/neurossifilis-sifilis-no-sistema-nervoso-central/

Autor: Dr. Sílvio Marques Pessoa – CRM: MG 16032
Uberlândia – MG, 05 de Fevereiro de 2026